Multifuncionalidade da Água Mineral
No dia mundial da água (22 de março), vale trazer a público pesquisa ainda atual realizada pela PUC – São Paulo, no final da década de 90, que já abordava um aspecto muito interessante relacionado ao futuro desse recurso.
O trabalho tomava por premissa, com base em previsões de organismos internacionais, que a água seria um ‘artigo’ escasso no mundo. E, por consequência, caro, estimulando a cobiça internacional sobre mananciais e o desenvolvimento de novas alternativas de produtos.
Sob o título ‘A importância socioeconômica e cultural da água mineral no Brasil’, o objetivo do estudo era analisar os impactos sobre as estâncias hidrominerais que seriam decorrentes da introdução no mercado de outras categorias de água, como a das “adicionadas de sais”.
Situando seu campo de pesquisa na história das principais estâncias hidrominerais de São Paulo, Minas Gerais e Paraná, complementada por entrevistas com autoridades, empresários, comerciantes e moradores, concluiu a universidade que essas localidades, concluiu a universidade que essas localidades, diante de uma possível forte concorrência de outras categorias de águas, perderiam suas referências de identidade e de todo um processo econômico, político social e cultural construído em torno das águas minerais naturais.
Os resultados alcançados pela pesquisa demonstram que a história da água mineral no Brasil está intimamente relacionada com a vida das comunidades onde nascem, desempenhando um conjunto muito amplo de funções, para além daquelas de mera commodity.
As funções da água mineral, destacam os pesquisadores, estão associadas à organização das localidades, ao valor econômico, à geração de empregos, à difusão de tecnologia e à defesa do meio ambiente.
Diante dessa multifuncionalidade – princípio ainda tão presente na Europa para justificar medidas de proteção à economia nacional, sob a alegação de defesa do interesse social – o setor de águas minerais naturais constitui precioso caso de reflexão sobre os efeitos da globalização nas nações em desenvolvimento.
Isto porque, está claro, conclui o estudo, que a indústria brasileira de águas minerais dificilmente poderá concorrer com um produto assemelhado, mas globalizado. A produção é regionalizada e o setor é composto de centenas de pequenas empresas, geralmente familiares, sem poder de investimento.
Nesse caso, os pesquisadores propõem que o exemplo europeu, que leva em conta os efeitos de certas decisões sobre a vida da sociedade, seja seguido pelas autoridades brasileiras. “Todas as características do setor de água mineral integram-no ao conceito de multifuncionalidade, o que requer, por isso mesmo, proteção especial. Não se trata de defesa protecionista da economia nacional contra concorrência estrangeira”, – enfatiza o estudo – “mas da busca da proteção da sociedade contra uma atividade econômica predatória. E esse é um direito inalienável das noções e um dever das suas autoridades.”
O trabalho da PUC, quase duas décadas depois, ainda representa um novo enfoque de reflexão para as autoridades brasileiras na busca de uma política nacional de águas potáveis.
No que se refere às águas engarrafadas, é preciso repensar as regras que hoje favorecem a atuar no mercado, com uma nova categoria de produto. É preciso proteger as águas minerais, levando em conta a defesa das estâncias hidrominerais, das centenas de micro e pequenas empresas que exploram lavras, dos 200 mil empregos que geram e, finalmente, de todos consumidores brasileiros.
Carlos Alberto Lancia
Geólogo e presidente da Abinam